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	<title>Chico Fonseca</title>
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		<title>Escândalo ou uma história de amor?</title>
		<link>https://chicofonseca.com.br/escandalo-ou-uma-historia-de-amor/</link>
		
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		<pubDate>Fri, 24 Feb 2023 17:38:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Lembro bem de quando ouvi falar nesse caso pela primeira vez. É que, dias depois, naquela mesma sala, ouvi a Rádio Difusora interromper a sua programação normal para dar uma notícia extraordinária: John Kennedy havia sido assassinado, em vinte e dois de novembro de 1963. Parece que todos que são desse tempo se lembram de onde estavam quando receberam essa notícia que comoveu o mundo.&#160; Eu e meu primo jogávamos futebol de botão na mesa da sala, enquanto nossos pais ouviam música e conversavam. Mas o jeito como eles falavam me despertou a curiosidade. Sentados nas pontas do sofá e das poltronas, corpos inclinados para frente, quase encostavam as cabeças, no entusiasmo do assunto misterioso.&#160; Estiquei o ouvido e consegui pescar fragmentos esparsos da conversa, que o cuidado deles não conseguiu evitar. Ouvi com muita clareza a palavra escândalo, e me liguei mais ainda.&#160; Eles se referiam a um casal da alta sociedade local que tinha viajado para passar uma temporada no Rio de Janeiro, numa tentativa de abafar a repercussão de um acontecimento inusitado. Na vitrola, Nat King Cole cantava “I’m in the Mood for Love” *, que eu adorava, mas naquela hora só serviu pra me atrapalhar. Mesmo com a música ao fundo, deu pra ouvir que eles falavam de um adultério, o que não era tão incomum na época, assim como hoje.&#160; Fiquei pensando na finalidade daquela viagem. O fato já tinha acontecido, o povo não iria esquecer tão cedo, ou nunca mais, melhor fariam se tivessem ficado em casa. Ou separavam ou assumiam. Viajar pra quê?&#160; Só que era a esposa, e não o marido, como pensei a princípio, quem teria cometido o adultério. Uma jovem bonita, recém-casada, professora de História, havia deixado de dar aulas no tradicional Colégio Rosa Castro para se dedicar à sua nova condição de dona de casa. Não ficava bem continuar trabalhando, já que o marido, um homem de posses, podia sustentá-la.&#160; Nesse tempo, o trabalho da mulher era quase que uma humilhação para o homem. Esposas, de modo geral, só trabalhavam fora quando seus maridos não eram capazes de sustentar a casa sozinhos.&#160; Louco por uma história (lida, ouvida ou, de preferência, inventada), gostava de misturar fatos reais com outros imaginados e contar em forma de versos, tipo cordel. Com a atenção voltada para a conversa dos adultos, me descuidei do jogo. Mesmo perdendo, passei a me concentrar mais na conversa que na partida. Só fazia jogadas pela direita, pra ficar mais perto do sofá onde nossos pais conversavam. Será que eu tinha ouvido direito? Seria isso mesmo? Foi quando observei os olhos esbugalhados da minha mãe, da minha tia e do meu tio, atentos para a história que o meu pai contava, preparando-se para a revelação que viria a seguir. Acho que puxei pra ele esse gosto de contar histórias. O adultério não teria sido cometido com outro homem, mas com uma moça. Caramba! Um escândalo e tanto, pelos conceitos da época.&#160; Numa cidade pequena e conservadora, com sua rotina arrastada, influenciada pelos casarões e sobrados seculares, nada como um bom escândalo pra sacudir a monotonia do dia a dia. Na conversa deles, os detalhes menos comprometedores eram falados sem os cuidados do segredo.&#160; Apaixonada pelo magistério, a professora tinha obtido licença do marido para dar aulas particulares em casa, sem remuneração, para a neta da costureira da sua mãe, que se preparava para o vestibular da Faculdade de História. Esbelta, um pouco mais alta que a professora, a aluna aparentava mais que os seus dezenove anos. Uma linda afro-morena, pele clareada por sucessivas miscigenações, mas ainda conservando traços da sua ancestralidade negra, a moça era um belo exemplo das vantagens da mistura de etnias. Pude perceber o entusiasmo do meu pai descrevendo os seus olhos castanho-claros, que mudavam de tom conforme a claridade, como se o mel se dissolvesse em luz até chegar a um suave amarelo esverdeado. Estremeci só de pensar.&#160; Com meus catorze anos recém-completados, baseado no relato do meu pai, mas certamente influenciado pelos meus hormônios, fiquei imaginando a moça a caminho da aula particular, abraçada a seus cadernos, cheirosa, com cabelos ainda úmidos do banho, num vestido solto, de alça, com seu par de olhos de mel dissolvido em luz, e eu a seguindo com os meus olhos cobiçosos, para observá-la por outro ângulo, depois que passasse. Encantado com os olhos, talvez nem reparasse nas suas formas generosas, descritas pelo meu pai com muita delicadeza.&#160;&#160; Distraído com a história, perdi o jogo de lavada. Nem lembro mais do placar. Hora de ir pra casa, recolhi os botões e fomos caminhando pela Rua do Passeio, eu, minha irmã mais nova e meus pais, devagar, prestando atenção na calçada mal iluminada.&#160;&#160; Numa límpida noite de estio, com um fiapo de Lua nova já descendo no horizonte, pros lados da Praia Grande, todo o protagonismo ficava por conta da exuberante Via Láctea, com sua miríade de estrelas esparramadas num arco que abraçava o céu de uma ponta a outra.&#160; Inspirado, já tecendo a trama pelo caminho, esperei que todos se recolhessem, peguei papel e caneta e comecei a escrever. Entrei pela madrugada, com a luz fraquinha do abajur da cabeceira, e fui escrevendo e rimando, tentando lembrar dos detalhes.&#160;&#160; E xingando Nat King Cole, que tanto tinha me atrapalhado.&#160;&#160; Preenchendo as lacunas com a imaginação (e quantas lacunas tinha essa história, e quanta imaginação eu tinha), sem conseguir parar de escrever, varei a noite até que o sono me venceu, e eu dormi por cima dos versos.&#160; Claro que, numa relação entre duas jovens, não poderiam faltar momentos de forte conteúdo erótico. Ainda mais narrados por um adolescente metido a poeta. Ia escrevendo e escondendo as folhas, pra que ninguém lesse a minha escrita atrevida.&#160; Dias depois, concluída a narrativa, agora era tratar de esconder. Afinal, essa era a minha “obra” mais consistente até aquele dia. Dobrei as folhas (e não eram poucas) bem dobradinhas, procurei uma fresta entre uma tábua e outra do velho assoalho</p>
<p>O post <a href="https://chicofonseca.com.br/escandalo-ou-uma-historia-de-amor/">Escândalo ou uma história de amor?</a> apareceu primeiro em <a href="https://chicofonseca.com.br">Chico Fonseca</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Lembro bem de quando ouvi falar nesse caso pela primeira vez. É que, dias depois, naquela mesma sala, ouvi a Rádio Difusora interromper a sua programação normal para dar uma notícia extraordinária: John Kennedy havia sido assassinado, em vinte e dois de novembro de 1963. Parece que todos que são desse tempo se lembram de onde estavam quando receberam essa notícia que comoveu o mundo.&nbsp;</p>



<p>Eu e meu primo jogávamos futebol de botão na mesa da sala, enquanto nossos pais ouviam música e conversavam. Mas o jeito como eles falavam me despertou a curiosidade. Sentados nas pontas do sofá e das poltronas, corpos inclinados para frente, quase encostavam as cabeças, no entusiasmo do assunto misterioso.&nbsp;</p>



<p>Estiquei o ouvido e consegui pescar fragmentos esparsos da conversa, que o cuidado deles não conseguiu evitar. Ouvi com muita clareza a palavra escândalo, e me liguei mais ainda.&nbsp; Eles se referiam a um casal da alta sociedade local que tinha viajado para passar uma temporada no Rio de Janeiro, numa tentativa de abafar a repercussão de um acontecimento inusitado. Na vitrola, Nat King Cole cantava “I’m in the Mood for Love” *, que eu adorava, mas naquela hora só serviu pra me atrapalhar. Mesmo com a música ao fundo, deu pra ouvir que eles falavam de um adultério, o que não era tão incomum na época, assim como hoje.&nbsp;</p>



<p>Fiquei pensando na finalidade daquela viagem. O fato já tinha acontecido, o povo não iria esquecer tão cedo, ou nunca mais, melhor fariam se tivessem ficado em casa. Ou separavam ou assumiam. Viajar pra quê?&nbsp;</p>



<p>Só que era a esposa, e não o marido, como pensei a princípio, quem teria cometido o adultério. Uma jovem bonita, recém-casada, professora de História, havia deixado de dar aulas no tradicional Colégio Rosa Castro para se dedicar à sua nova condição de dona de casa. Não ficava bem continuar trabalhando, já que o marido, um homem de posses, podia sustentá-la.&nbsp;</p>



<p>Nesse tempo, o trabalho da mulher era quase que uma humilhação para o homem. Esposas, de modo geral, só trabalhavam fora quando seus maridos não eram capazes de sustentar a casa sozinhos.&nbsp;</p>



<p>Louco por uma história (lida, ouvida ou, de preferência, inventada), gostava de misturar fatos reais com outros imaginados e contar em forma de versos, tipo cordel. Com a atenção voltada para a conversa dos adultos, me descuidei do jogo. Mesmo perdendo, passei a me concentrar mais na conversa que na partida. Só fazia jogadas pela direita, pra ficar mais perto do sofá onde nossos pais conversavam. Será que eu tinha ouvido direito? Seria isso mesmo? Foi quando observei os olhos esbugalhados da minha mãe, da minha tia e do meu tio, atentos para a história que o meu pai contava, preparando-se para a revelação que viria a seguir. Acho que puxei pra ele esse gosto de contar histórias. O adultério não teria sido cometido com outro homem, mas com uma moça. Caramba! Um escândalo e tanto, pelos conceitos da época.&nbsp;</p>



<p>Numa cidade pequena e conservadora, com sua rotina arrastada, influenciada pelos casarões e sobrados seculares, nada como um bom escândalo pra sacudir a monotonia do dia a dia. Na conversa deles, os detalhes menos comprometedores eram falados sem os cuidados do segredo.&nbsp;</p>



<p>Apaixonada pelo magistério, a professora tinha obtido licença do marido para dar aulas particulares em casa, sem remuneração, para a neta da costureira da sua mãe, que se preparava para o vestibular da Faculdade de História. Esbelta, um pouco mais alta que a professora, a aluna aparentava mais que os seus dezenove anos. Uma linda afro-morena, pele clareada por sucessivas miscigenações, mas ainda conservando traços da sua ancestralidade negra, a moça era um belo exemplo das vantagens da mistura de etnias. Pude perceber o entusiasmo do meu pai descrevendo os seus olhos castanho-claros, que mudavam de tom conforme a claridade, como se o mel se dissolvesse em luz até chegar a um suave amarelo esverdeado<strong>.</strong> Estremeci só de pensar.&nbsp;</p>



<p>Com meus catorze anos recém-completados, baseado no relato do meu pai, mas certamente influenciado pelos meus hormônios, fiquei imaginando a moça a caminho da aula particular, abraçada a seus cadernos, cheirosa, com cabelos ainda úmidos do banho, num vestido solto, de alça, com seu par de olhos de mel dissolvido em luz, e eu a seguindo com os meus olhos cobiçosos, para observá-la por outro ângulo, depois que passasse. Encantado com os olhos, talvez nem reparasse nas suas formas generosas, descritas pelo meu pai com muita delicadeza.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Distraído com a história, perdi o jogo de lavada. Nem lembro mais do placar. Hora de ir pra casa, recolhi os botões e fomos caminhando pela Rua do Passeio, eu, minha irmã mais nova e meus pais, devagar, prestando atenção na calçada mal iluminada.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Numa límpida noite de estio, com um fiapo de Lua nova já descendo no horizonte, <em>pros</em> lados da Praia Grande, todo o protagonismo ficava por conta da exuberante Via Láctea, com sua miríade de estrelas esparramadas num arco que abraçava o céu de uma ponta a outra.&nbsp;</p>



<p>Inspirado, já tecendo a trama pelo caminho, esperei que todos se recolhessem, peguei papel e caneta e comecei a escrever. Entrei pela madrugada, com a luz fraquinha do abajur da cabeceira, e fui escrevendo e rimando, tentando lembrar dos detalhes.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>E xingando Nat King Cole, que tanto tinha me atrapalhado.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Preenchendo as lacunas com a imaginação (e quantas lacunas tinha essa história, e quanta imaginação eu tinha), sem conseguir parar de escrever, varei a noite até que o sono me venceu, e eu dormi por cima dos versos.&nbsp;</p>



<p>Claro que, numa relação entre duas jovens, não poderiam faltar momentos de forte conteúdo erótico. Ainda mais narrados por um adolescente metido a poeta. Ia escrevendo e escondendo as folhas, pra que ninguém lesse a minha escrita atrevida.&nbsp;</p>



<p>Dias depois, concluída a narrativa, agora era tratar de esconder. Afinal, essa era a minha “obra” mais consistente até aquele dia. Dobrei as folhas (e não eram poucas) bem dobradinhas, procurei uma fresta entre uma tábua e outra do velho assoalho da sala, num canto bem escondido, e lá as encaixei cuidadosamente. De vez em quando ia lá conferir, pra ver se ainda estavam no lugar. Nunca reli, com medo de ser surpreendido pela minha mãe com aqueles versos nas mãos.&nbsp;</p>



<p>Certo dia, chegando em casa, senti cheiro de cera, o que pra mim era sinônimo de festa.&nbsp; Lembrei que estávamos na semana do Natal, e as empregadas estavam fazendo uma faxina geral, varrendo o assoalho e espalhando a cera com o escovão, exatamente no local onde eu havia escondido a minha obra. Que já não estava mais lá. Será que, com o peso do escovão, escorregou pela fresta e caiu no porão? Será que as moças da faxina a tinham encontrado? E se encontraram e levaram pra minha mãe? Claro que eu não iria perguntar se alguém tinha visto ou guardado. Fiquei na minha.&nbsp;</p>



<p>Procurei me conformar com a ideia de que os meus versos tinham se perdido para sempre. Pela fresta do assoalho, atravessaram a linha do tempo em direção ao passado e foram se esconder naquele porão secular, onde ninguém nunca tinha entrado. Talvez estejam por lá até hoje, encobertos pela poeira do tempo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Perder os versos, com muita dor, acabei aceitando. Mas a história, bem, aquela não era uma história que se deixasse perder assim. Merecia ser contada. Nem tanto pelo inusitado do caso, mas pelo turbilhão de emoções e sentimentos que poderia envolver uma relação proibida, numa cidade aprazível, porém puritana, num tempo de recato, religiosidade e preconceito.&nbsp;</p>



<p>Uma relação afetiva entre duas mulheres não fazia parte do imaginário coletivo da cidade, mas certamente sua revelação despertaria forte reprovação e censura. Ainda mais sendo uma delas afro descendente. <strong>Como essas jovens teriam lidado com isso? Teriam sufocado os seus sentimentos e desejos? Ou teriam enfrentado o preconceito e encontrado uma maneira de viver a sua relação?</strong>&nbsp;</p>



<p>Queria abordar o assunto com <strong>empatia, delicadeza e respeito</strong>. Não iria desistir de contar essa história.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Nossa cidade, impregnada de passado, guardava ainda muito dos hábitos de tempos remotos. Sobranceira à baía de São Marcos, virada para o poente e envolvida pelos rios Anil e Bacanga, no seu entorno ocorre, diariamente, uma das maiores diferenças de marés do mundo, fazendo de São Luís quase que uma ilha dentro da outra, ilhada em si mesma e nos seus costumes.&nbsp;</p>



<p>A força renovadora da maré enchente, que invade as calhas dos rios e se impõe sobre a sua correnteza, invertendo o sentido do fluxo das águas, é a perfeita metáfora para o impulso incontrolável, transgressor, que inverte o sentido do desejo e do afeto, se impondo sobre a correnteza dos costumes.&nbsp;</p>



<p>Com seus casarões e sobrados de fachadas de azulejos, cada um com sua história e seus segredos, debruçados sobre calçadas de pedra de cantaria e enfileirados ao longo de estreitas ruas de paralelepípedos, ficar na janela era uma maneira muito apreciada de interagir com a cidade. Observando o movimento das ruas, dos bondes, dos poucos carros passando; comunicando-se com os vizinhos através de acenos, cumprimentando os passantes (Olá, como tem passado?), que de vez em quando paravam para uma prosa rápida, a vida girava em torno das janelas.&nbsp;</p>



<p>Até os namoros começavam com as moças nelas debruçadas e os rapazes na calçada se esticando para segurar a sua mão. Só depois de meses, e de um pedido formal de licença, eram autorizados a entrar e sentar numa cadeira no corredor de entrada, próximo à sala, não muito longe dos olhos dos pais da moça. Um assovio embaixo da janela anunciava para a namorada que o seu amado havia chegado. E cada um tinha o seu próprio assovio, personalizado, pra não ser confundido. Mas, por algum código de costumes ancestral, as moças nunca assoviavam, só os rapazes.&nbsp;</p>



<p>Os pregoeiros de rua, com sua voz empostada, passavam anunciando suas mercadorias, beneficiando-se da proximidade entre as ruas e as casas. Os noturnos vendiam pamonha quentinha, quebra-queixo, derressol (um doce cujo nome vinha do preço, <em>dez réis só</em>). Os diurnos ofereciam camarão fresco, sorvetes de coco e bacuri, e mais o carvão de varinha, combustível imprescindível para os antigos fogões de alvenaria, ainda muito utilizados, além dos fogareiros e ferros de engomar. Bastava ouvir o grito cantado do vendedor e correr até a janela.&nbsp;</p>



<p>É claro que, nesse contexto, dar conta da vida alheia era uma atividade praticada com muito gosto. E um ambiente propício para fofocas e meias verdades, especialmente as de cunho sexual, que era então um assunto tabu. Muito desejo reprimido às vezes precisava ser extravasado através da imaginação.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Anos depois, por um desses acasos que só acontecem na ficção, já morando no Rio de Janeiro, conheci uma moça que teria vivenciado de perto o caso do adultério inusitado de 1963, o que imediatamente me reacendeu o entusiasmo de contar essa história. Dizendo-se amiga próxima de uma das personagens, achei que ela poderia saber de muitos detalhes. Embora alguns poucos anos mais velha que eu, interessei-me imediatamente por ela e iniciamos um breve relacionamento.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Como uma Sherazade moderna, ela foi me contando, aos pedaços, um pouco a cada um dos nossos encontros, o que sabia. Ou dizia que sabia. Às vezes eu desconfiava que ela estivesse usando o mesmo recurso da famosa personagem da lenda persa, inventando histórias só pra prolongar a relação. Nem precisava, eu realmente estava gostando dela. Como o namoro durou bem menos que “As Mil e Uma Noites”, e terminou de forma abrupta e pouco amigável (ela sempre imaginando que eu tinha mais interesse na narrativa do que na narradora), ficaram ainda muitas lacunas e, não posso negar, uma certa saudade.&nbsp;</p>



<p>Mas o seu relato, <em>si non era vero, era ben trovato</em><em>. </em>Tudo fazia sentido. E algumas passagens eu tive oportunidade de confirmar.&nbsp;</p>



<p>Interessada na importante participação dos negros na construção da sua cidade, Mariana convence a professora a acompanhá-la nas pesquisas sobre a saga do seu ancestral escravizado. Visitam arquivos, museus e igrejas da cidade, até se depararem com alguns envelopes pardos, empoeirados, esquecidos numa velha prateleira do Convento de N. S. do Carmo. Recheados de folhas de papel ao maço, já amareladas pelo tempo, traziam um surpreendente relato, escrito a bico de pena. Pelo lado de fora do envelope, com uma letra elegante, lia-se:&nbsp;</p>



<p>“Padre Lusitano Marcolino Barreto – Memórias &#8211; Alcântara, Maranhão &#8211; 1903”.&nbsp;</p>



<p>Entre pesquisas, passeios de bonde e conversas descontraídas, saboreando sorvetes de frutas da terra, Ellena e Mariana vão descobrindo afinidades, tornando-se amigas, confidentes, até se descobrirem enredadas nessa relação inesperada, que mudaria radicalmente seus destinos.&nbsp;</p>



<p>Mesclando personagens reais e imaginários, costurando retalhos de histórias de vidas verdadeiras com outras que, por descuido do destino, não chegaram a existir, preenchendo as lacunas com a imaginação, relato pra você, amigo(a) leitor(a), esta história, em forma de romance, quase seis décadas depois de acontecidos os fatos, com a emoção e a poesia que a minha modesta, mas esforçada narrativa foi capaz reproduzir.&nbsp;</p>



<p>Espero que você, ao ler, se emocione tanto quanto eu, ao escrever.&nbsp;</p>



<p>* I’m in the Mood for Love, música de Dorothy Fields e Jimmy Mchugh</p>
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		<title>Momento de Ternura</title>
		<link>https://chicofonseca.com.br/momento-de-ternura/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[admin]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Feb 2023 14:06:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O perfume de alfazema, embora discreto e suave, fica pela casa depois&#160;que Mariana vai embora. E no rosto de Ellena, quando se despedem&#160;com dois beijos. E nas suas mãos, que ela de vez em quando&#160;leva juntas ao rosto, só pra sentir mais uma vez o perfume da aluna.&#160; Entre aulas, pesquisas e passeios de bonde, Ellena e Mariana vão se tornando cada vez mais próximas, descobrem afinidades, interesses comuns. Sentem-se muito bem na companhia uma da outra e desenvolvem mútua admiração e forte afeição. Os dias de estudos são aguardados com ansiedade, já os fins de semana passam monótonos, arrastados. Ainda bem que tem a missa das tardes de domingo, onde Ellena sempre encontra Mariana e a avó. As duas, neta e avó, costumam sentar-se um pouco mais à frente, e Ellena passa a missa inteira observando Mariana de longe. Fica o tempo todo distraída, vendo a brisa da viração brincar com os seus cabelos anelados, completamente desligada do andamento da celebração.&#160; Começa a entender agora a razão daquele desassossego, quando sentiu o perfume da aluna, naquela tarde, enquanto esperavam pelo começo da missa. Seria apenas uma grande amizade que estava começando, pensa Ellena. Gostam das mesmas coisas, divertem-se quando estão juntas, começam a trocar confidências. E agora têm um projeto em comum, a pesquisa sobre o antepassado da aluna. Tudo contribui para que se sintam cada vez mais próximas.&#160; Muitas vezes, Ellena se perde no assunto da aula observando os lábios morenos e os dentes perfeitos de Mariana. Observa as suas mãos delicadas, a pele bronzeada, as unhas bem cuidadas, naturais. Acompanha, hipnotizada, a variação de tonalidade dos seus claros olhos de mel contra a luz. O perfume de alfazema, embora discreto e suave, fica pela casa depois que ela vai embora. E no rosto de Ellena, quando se despedem com dois beijos. E nas suas mãos, que ela de vez em quando leva juntas ao rosto, só pra sentir mais uma vez o perfume da aluna. É mais que amizade, muito mais. É um sentimento novo, inesperado, desconhecido, que foi chegando sorrateiro e tomou conta do seu coração. Uma sensação de encantamento nunca antes experimentada por ela. E ainda veio acompanhada de uma atração física inexplicável, quase incontrolável, deixando-a confusa, perplexa. Ellena chega a se emocionar pensando em Mariana, quando não estão juntas. E aguarda ansiosa o momento de se reencontrarem. Chega a sentir medo de não conseguir controlar seus impulsos, fica a ponto de perder a respiração na presença da aluna. Será que Mariana já percebeu alguma coisa? Será que gosta? Ou se sente incomodada? Ellena luta contra o desejo de tentar se aproximar dela fisicamente. Tem que manter a postura recomendada para sua condição de professora.&#160;&#160; A cada encontro, a atração se mostra mais intensa. E a ansiedade também. Não vê a hora de Mariana chegar. Quando ela bate palmas na porta, seu coração só falta saltar pela boca. Fica imaginando como Mariana reagiria a uma aproximação.&#160; Ellena senta-se na cabeceira e Mariana à sua esquerda, bem próximas, para melhor explicar as matérias. De vez em quando os joelhos se tocam, mas Ellena recolhe o seu, com receio de que Mariana se sinta incomodada. Tem muito carinho pela aluna, mas também muito respeito. Mas a atração vai se tornando difícil de controlar.&#160;&#160; Olham-se com ternura, trocam sorrisos imotivados. Ellena percebe que Mariana se sente à vontade com seus gestos de carinho e demonstra ser receptiva. A aproximação torna-se inevitável. Novamente os joelhos se tocam, Ellena deixa ficar o seu e observa a reação de Mariana, que não demonstra se incomodar e não se afasta. Enquanto aponta um tópico da matéria com a caneta, as mãos também se aproximam até se tocarem, e Ellena faz deslizar os seus dedos delicadamente sobre os dedos de Mariana, que aceita e retribui o gesto. Entreolham-se e sorriem com cumplicidade. Estão completamente desligadas do mundo à sua volta, absorvidas por aquele momento de ternura e encantamento, quando percebem a aproximação de Bazinha. Ellena consulta o relógio e vê que já passa muito das cinco horas e precisa encerrar a aula. Logo Arthur chegará do trabalho. Recolhem o material e Ellena leva Mariana até a porta do meio. Ao se despedirem, Mariana encosta os seus lábios nos de Ellena, baixa o olhar e se vira em direção à rua. Surpresa, Ellena sente seu coração disparar. Fecha a porta, mas não resiste e corre até a janela para acompanhar os passos da aluna. Quando chega ao final do quarteirão, Mariana vira-se discretamente e percebe Ellena na janela. Trocam um aceno e um sorriso.&#160;&#160; Ellena está em êxtase, encantada, excitada. Joga-se na cama, pega o travesseiro ao lado e o abraça, como se abraçasse Mariana. Leva as mãos ao rosto pra sentir uma vez mais o seu perfume. Surpresa e ao mesmo tempo encantada com esse novo sentimento, Ellena não cabe em si de tanta felicidade. A relação tinha mudado de patamar.&#160; O jantar, ao lado do marido, transcorre monótono, desinteressante. Ele lhe fala dos assuntos da fábrica, motivado com a discreta recuperação dos negócios. Ellena se esforça pra lhe dar atenção, mas o seu pensamento está muito longe daquela mesa.&#160;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>O perfume de alfazema, embora discreto e suave, fica pela casa depois</em>&nbsp;<em>que Mariana vai embora. E no rosto de Ellena, quando se despedem</em>&nbsp;<em>com dois beijos. E nas suas mãos, que ela de vez em quando</em>&nbsp;<em>leva juntas ao rosto, só pra sentir mais uma vez o perfume da aluna.</em>&nbsp;</p>



<p>Entre aulas, pesquisas e passeios de bonde, Ellena e Mariana vão se tornando cada vez mais próximas, descobrem afinidades, interesses comuns. Sentem-se muito bem na companhia uma da outra e desenvolvem mútua admiração e forte afeição. Os dias de estudos são aguardados com ansiedade, já os fins de semana passam monótonos, arrastados. Ainda bem que tem a missa das tardes de domingo, onde Ellena sempre encontra Mariana e a avó. As duas, neta e avó, costumam sentar-se um pouco mais à frente, e Ellena passa a missa inteira observando Mariana de longe. Fica o tempo todo distraída, vendo a brisa da viração brincar com os seus cabelos anelados, completamente desligada do andamento da celebração.&nbsp;</p>



<p>Começa a entender agora a razão daquele desassossego, quando sentiu o perfume da aluna, naquela tarde, enquanto esperavam pelo começo da missa. Seria apenas uma grande amizade que estava começando, pensa Ellena. Gostam das mesmas coisas, divertem-se quando estão juntas, começam a trocar confidências. E agora têm um projeto em comum, a pesquisa sobre o antepassado da aluna. Tudo contribui para que se sintam cada vez mais próximas.&nbsp;</p>



<p>Muitas vezes, Ellena se perde no assunto da aula observando os lábios morenos e os dentes perfeitos de Mariana. Observa as suas mãos delicadas, a pele bronzeada, as unhas bem cuidadas, naturais. Acompanha, hipnotizada, a variação de tonalidade dos seus claros olhos de mel contra a luz. O perfume de alfazema, embora discreto e suave, fica pela casa depois que ela vai embora. E no rosto de Ellena, quando se despedem com dois beijos. E nas suas mãos, que ela de vez em quando leva juntas ao rosto, só pra sentir mais uma vez o perfume da aluna. É mais que amizade, muito mais. É um sentimento novo, inesperado, desconhecido, que foi chegando sorrateiro e tomou conta do seu coração. Uma sensação de encantamento nunca antes experimentada por ela. E ainda veio acompanhada de uma atração física inexplicável, quase incontrolável, deixando-a confusa, perplexa. Ellena chega a se emocionar pensando em Mariana, quando não estão juntas. E aguarda ansiosa o momento de se reencontrarem. Chega a sentir medo de não conseguir controlar seus impulsos, fica a ponto de perder a respiração na presença da aluna. Será que Mariana já percebeu alguma coisa? Será que gosta? Ou se sente incomodada? Ellena luta contra o desejo de tentar se aproximar dela fisicamente. Tem que manter a postura recomendada para sua condição de professora.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A cada encontro, a atração se mostra mais intensa. E a ansiedade também. Não vê a hora de Mariana chegar. Quando ela bate palmas na porta, seu coração só falta saltar pela boca. Fica imaginando como Mariana reagiria a uma aproximação.&nbsp;</p>



<p>Ellena senta-se na cabeceira e Mariana à sua esquerda, bem próximas, para melhor explicar as matérias. De vez em quando os joelhos se tocam, mas Ellena recolhe o seu, com receio de que Mariana se sinta incomodada. Tem muito carinho pela aluna, mas também muito respeito. Mas a atração vai se tornando difícil de controlar.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Olham-se com ternura, trocam sorrisos imotivados. Ellena percebe que Mariana se sente à vontade com seus gestos de carinho e demonstra ser receptiva. A aproximação torna-se inevitável. Novamente os joelhos se tocam, Ellena deixa ficar o seu e observa a reação de Mariana, que não demonstra se incomodar e não se afasta. Enquanto aponta um tópico da matéria com a caneta, as mãos também se aproximam até se tocarem, e Ellena faz deslizar os seus dedos delicadamente sobre os dedos de Mariana, que aceita e retribui o gesto. Entreolham-se e sorriem com cumplicidade. Estão completamente desligadas do mundo à sua volta, absorvidas por aquele momento de ternura e encantamento, quando percebem a aproximação de Bazinha. Ellena consulta o relógio e vê que já passa muito das cinco horas e precisa encerrar a aula. Logo Arthur chegará do trabalho. Recolhem o material e Ellena leva Mariana até a porta do meio. Ao se despedirem, Mariana encosta os seus lábios nos de Ellena, baixa o olhar e se vira em direção à rua. Surpresa, Ellena sente seu coração disparar. Fecha a porta, mas não resiste e corre até a janela para acompanhar os passos da aluna. Quando chega ao final do quarteirão, Mariana vira-se discretamente e percebe Ellena na janela. Trocam um aceno e um sorriso.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ellena está em êxtase, encantada, excitada. Joga-se na cama, pega o travesseiro ao lado e o abraça, como se abraçasse Mariana. Leva as mãos ao rosto pra sentir uma vez mais o seu perfume. Surpresa e ao mesmo tempo encantada com esse novo sentimento, Ellena não cabe em si de tanta felicidade. A relação tinha mudado de patamar.&nbsp;</p>



<p>O jantar, ao lado do marido, transcorre monótono, desinteressante. Ele lhe fala dos assuntos da fábrica, motivado com a discreta recuperação dos negócios. Ellena se esforça pra lhe dar atenção, mas o seu pensamento está muito longe daquela mesa.&nbsp;</p>
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		<title>O Dilema de Bazinha</title>
		<link>https://chicofonseca.com.br/o-dilema-de-bazinha/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[admin]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Feb 2023 14:30:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Bazinha sentou-se em um tamborete improvisado de banco e ali ficou, olhando pra rua, observando a enxurrada, que já transbordava da sarjeta, chegando a cobrir a calçada. Perplexa, o olhar parado, sem querer acreditar no que tinha ouvido.  Após deixar Mariana na porta, no final da aula, Ellena encontra Bazinha no patamar da escada do mirante, com a mão no quadril e olhar inquisidor.&#160; – Ellena, tu andaste arrumando este mirante? Senti cheiro de óleo de peroba e os móveis estão brilhando, a cama arrumadinha.&#160;&#160; – É, eu dei uma arrumada, estava meio empoeirado, e tu sabes que eu gosto de ficar aí, deitada na rede, lendo. É o lugar mais ventilado da casa.&#160; – Puxa, podias ter me pedido que eu arrumava, tu sabes que tens problema com poeira.&#160; Ellena ficou preocupada de Bazinha desconfiar de alguma coisa, mas achou que tinha dado uma boa desculpa. Precisava tomar mais cuidado. Sabia que era um segredo difícil de guardar, mas não tinha alternativa, o risco sempre iria existir. Só não sabia até quando iria conseguir manter essa relação em segredo. Mas já não podia viver sem ela. Estava disposta a pagar o preço.&#160; Na quinta-feira seguinte, Bazinha já ia a meio caminho da mercearia quando começou a trovejar. O céu foi ficando escuro, o vento mudando de direção, soprando forte a ponto de levantar a poeira da rua. Resolveu voltar pra pegar um guarda-chuva. Quando entrou em casa, estranhou que as duas não estivessem na varanda. Imaginou logo que Ellena tivesse levado Mariana para ver alguma coisa no mirante, talvez escolher um livro, ou observar a mudança repentina do tempo.&#160;&#160; Bazinha foi até seus aposentos, pegou o guarda-chuva e, na volta, como já começassem a cair os primeiros pingos de chuva, preferiu avisar Ellena que seria melhor deixar para ir à mercearia no dia seguinte. Subiu a escada, mas quando já estava nos últimos degraus, percebeu que a porta estava fechada, e teve a impressão de ter ouvido alguns sussurros e gemidos. Ficou assustada, chegou mais perto da porta e reconheceu as vozes de Ellena e Mariana.&#160;&#160; Não podia acreditar nos seus ouvidos. Não, não podia ser o que ela estava pensando. Com o coração angustiado, perplexa, preferiu sair logo dali. Desceu a escada nas pontas dos pés e foi para as suas compras, mesmo debaixo de chuva. Estaria imaginando coisas, é claro. Sua patroazinha se envolvendo com a aluna? Que bobagem, claro que não era nada disso. Era coisa da sua cabeça. Ainda não tinha 50 anos, será que já estava variando?&#160; Mas percebia a ternura com que as duas se tratavam, a ansiedade com que Ellena esperava os dias de aulas. Foi juntando os pontos, não queria admitir, mas não podia mais negar a realidade. E lembrou também de uma segunda-feira em que Ellena pediu para ela ir comprar sorvete lá longe, na Rosa de Maio. Meu Deus, elas estão tendo um caso, sim. Pensou que já deveria ter percebido isso antes, mas se recusava acreditar.&#160; Mal pôs os pés na calçada e a chuva começou a engrossar. Não queria voltar pra casa, não queria ouvir de novo o que tanto a tinha angustiado, muito menos criar constrangimento para as duas. Resolveu seguir adiante, tentando se proteger sob os beirais das casas, e apressou o passo até alcançar a quitanda do seu Newton Ferreira, na esquina da Rua dos Afogados com a Rua da Alegria, para se abrigar. Com a roupa encharcada, já não conseguia equilibrar o guarda-chuva contra a força do vento. Entrou na quitanda, cumprimentou seu Newton e pediu licença pra esperar ali até a chuva passar. Sentou-se num tamborete improvisado de banco e ali ficou, olhando pra rua, observando a enxurrada, que já transbordava da sarjeta, chegando a cobrir a calçada. O olhar parado, perplexa, sem querer acreditar no que tinha ouvido. A sua menina, que ela tanto amava, que ajudou a criar desde que nasceu, envolvida numa relação espúria, imoral mesmo. Sexo entre duas mulheres, pelo amor de Deus, sempre achou que isso era uma perversão, uma doença, um pecado. E ficou ali matutando, angustiada, até que, depois de um bom tempo, já no final da tarde, a chuva arrefeceu e ela decidiu voltar pra casa. Foi caminhando devagar pra dar tempo de Mariana sair antes dela chegar. Preferia não encontrar com nenhuma das duas, mas Ellena ainda estava na varanda, arrumando o material das aulas.&#160; Sem levantar o olhar, explicou que não tinha conseguido fazer as compras por causa da chuva e foi direto para o seu quarto. Não conseguia encarar a patroa, olhar nos olhos dela. Sentia vergonha por ela. Sentia-se culpada por ter ouvido o que ouviu. Por ter, inadvertidamente, de certa maneira, invadido a privacidade delas.&#160; Serviu o jantar porque não tinha outro jeito. Deixou para lavar as louças no dia seguinte, e logo se recolheu aos seus aposentos. Mas não conseguia pregar o olho. Aqueles gemidos não lhe saíam da cabeça. O que teria acontecido com sua menina? Será que Mariana é quem a tinha influenciado para esse caminho? Não, claro que não, ela já conhecia bem a aluna de Ellena, tinha se afeiçoado por ela, uma moça tão educada, carinhosa com todos. Sabia do seu comportamento exemplar, do carinho que tinha pela avó, da sua dedicação aos estudos. Admirava a amizade das duas e o carinho com que Ellena preparava as aulas. Enfim, duas pessoas tão boas envolvidas numa relação como essa. Não dava pra creditar. O que as teria levado a se entregar dessa maneira uma à outra?&#160;&#160; Religiosa, pensou como Deus teria permitido que isso acontecesse. Será que Deus as perdoaria? Será que Deus, na sua infinita bondade, admitiria esse tipo de relacionamento? Será que Deus as havia feito assim? E se Deus as fez assim, seria mesmo um pecado?&#160; E lembrou-se da sua doença, da tuberculose terrível que quase a matou. Lembrou-se de como Ellena havia insistido com os pais para que ela permanecesse na casa deles e pudesse ser cuidada por ela. Tinha</p>
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<p class="has-text-align-right"><em>Bazinha sentou-se em um tamborete improvisado de banco e ali ficou, olhando</em> <em>pra rua, observando a enxurrada, que já transbordava da sarjeta, chegando a</em> <em>cobrir a calçada. Perplexa, o olhar parado, sem querer acreditar no que tinha ouvido.</em> </p>



<p>Após deixar Mariana na porta, no final da aula, Ellena encontra Bazinha no patamar da escada do mirante, com a mão no quadril e olhar inquisidor.&nbsp;</p>



<p>– Ellena, tu andaste arrumando este mirante? Senti cheiro de óleo de peroba e os móveis estão brilhando, a cama arrumadinha.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>– É, eu dei uma arrumada, estava meio empoeirado, e tu sabes que eu gosto de ficar aí, deitada na rede, lendo. É o lugar mais ventilado da casa.&nbsp;</p>



<p>– Puxa, podias ter me pedido que eu arrumava, tu sabes que tens problema com poeira.&nbsp;</p>



<p>Ellena ficou preocupada de Bazinha desconfiar de alguma coisa, mas achou que tinha dado uma boa desculpa. Precisava tomar mais cuidado. Sabia que era um segredo difícil de guardar, mas não tinha alternativa, o risco sempre iria existir. Só não sabia até quando iria conseguir manter essa relação em segredo. Mas já não podia viver sem ela. Estava disposta a pagar o preço.&nbsp;</p>



<p>Na quinta-feira seguinte, Bazinha já ia a meio caminho da mercearia quando começou a trovejar. O céu foi ficando escuro, o vento mudando de direção, soprando forte a ponto de levantar a poeira da rua. Resolveu voltar pra pegar um guarda-chuva. Quando entrou em casa, estranhou que as duas não estivessem na varanda. Imaginou logo que Ellena tivesse levado Mariana para ver alguma coisa no mirante, talvez escolher um livro, ou observar a mudança repentina do tempo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Bazinha foi até seus aposentos, pegou o guarda-chuva e, na volta, como já começassem a cair os primeiros pingos de chuva, preferiu avisar Ellena que seria melhor deixar para ir à mercearia no dia seguinte. Subiu a escada, mas quando já estava nos últimos degraus, percebeu que a porta estava fechada, e teve a impressão de ter ouvido alguns sussurros e gemidos. Ficou assustada, chegou mais perto da porta e reconheceu as vozes de Ellena e Mariana.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não podia acreditar nos seus ouvidos. Não, não podia ser o que ela estava pensando. Com o coração angustiado, perplexa, preferiu sair logo dali. Desceu a escada nas pontas dos pés e foi para as suas compras, mesmo debaixo de chuva. Estaria imaginando coisas, é claro. Sua patroazinha se envolvendo com a aluna? Que bobagem, claro que não era nada disso. Era coisa da sua cabeça. Ainda não tinha 50 anos, será que já estava <em>variando</em>?&nbsp;</p>



<p>Mas percebia a ternura com que as duas se tratavam, a ansiedade com que Ellena esperava os dias de aulas. Foi juntando os pontos, não queria admitir, mas não podia mais negar a realidade. E lembrou também de uma segunda-feira em que Ellena pediu para ela ir comprar sorvete lá longe, na Rosa de Maio. Meu Deus, elas estão tendo um caso, sim. Pensou que já deveria ter percebido isso antes, mas se recusava acreditar.&nbsp;</p>



<p>Mal pôs os pés na calçada e a chuva começou a engrossar. Não queria voltar pra casa, não queria ouvir de novo o que tanto a tinha angustiado, muito menos criar constrangimento para as duas. Resolveu seguir adiante, tentando se proteger sob os beirais das casas, e apressou o passo até alcançar a quitanda do seu Newton Ferreira, na esquina da Rua dos Afogados com a Rua da Alegria, para se abrigar. Com a roupa encharcada, já não conseguia equilibrar o guarda-chuva contra a força do vento. Entrou na quitanda, cumprimentou seu Newton e pediu licença pra esperar ali até a chuva passar. Sentou-se num tamborete improvisado de banco e ali ficou, olhando pra rua, observando a enxurrada, que já transbordava da sarjeta, chegando a cobrir a calçada. O olhar parado, perplexa, sem querer acreditar no que tinha ouvido. A sua menina, que ela tanto amava, que ajudou a criar desde que nasceu, envolvida numa relação espúria, imoral mesmo. Sexo entre duas mulheres, pelo amor de Deus, sempre achou que isso era uma perversão, uma doença, um pecado. E ficou ali matutando, angustiada, até que, depois de um bom tempo, já no final da tarde, a chuva arrefeceu e ela decidiu voltar pra casa. Foi caminhando devagar pra dar tempo de Mariana sair antes dela chegar. Preferia não encontrar com nenhuma das duas, mas Ellena ainda estava na varanda, arrumando o material das aulas.&nbsp;</p>



<p>Sem levantar o olhar, explicou que não tinha conseguido fazer as compras por causa da chuva e foi direto para o seu quarto. Não conseguia encarar a patroa, olhar nos olhos dela. Sentia vergonha por ela. Sentia-se culpada por ter ouvido o que ouviu. Por ter, inadvertidamente, de certa maneira, invadido a privacidade delas.&nbsp;</p>



<p>Serviu o jantar porque não tinha outro jeito. Deixou para lavar as louças no dia seguinte, e logo se recolheu aos seus aposentos. Mas não conseguia pregar o olho. Aqueles gemidos não lhe saíam da cabeça. O que teria acontecido com sua menina? Será que Mariana é quem a tinha influenciado para esse caminho? Não, claro que não, ela já conhecia bem a aluna de Ellena, tinha se afeiçoado por ela, uma moça tão educada, carinhosa com todos. Sabia do seu comportamento exemplar, do carinho que tinha pela avó, da sua dedicação aos estudos. Admirava a amizade das duas e o carinho com que Ellena preparava as aulas. Enfim, duas pessoas tão boas envolvidas numa relação como essa. Não dava pra creditar. O que as teria levado a se entregar dessa maneira uma à outra?&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Religiosa, pensou como Deus teria permitido que isso acontecesse. Será que Deus as perdoaria? Será que Deus, na sua infinita bondade, admitiria esse tipo de relacionamento? Será que Deus as havia feito assim? E se Deus as fez assim, seria mesmo um pecado?&nbsp;</p>



<p>E lembrou-se da sua doença, da tuberculose terrível que quase a matou. Lembrou-se de como Ellena havia insistido com os pais para que ela permanecesse na casa deles e pudesse ser cuidada por ela. Tinha bem vivos na memória o carinho e a dedicação de Ellena, ainda quase uma criança, sofrendo junto com ela, dando-lhe os remédios na hora certa até que ela se recuperasse. Lembrou-se das aulas que Ellena dava pra ela todas as noites, que a alfabetizou e fez dela uma pessoa instruída como ela nunca podia imaginar. Tudo que ela aprendeu, mesmo sem ter frequentado escola, devia à dedicação e ao carinho de Ellena.&nbsp;</p>



<p>Uma coisa estava clara pra ela: não abandonaria sua patroa e amiga em hipótese alguma. Resolveu que não iria recriminá-la, nem julgá-la. Se fosse uma doença, iria cuidar de Ellena com o mesmo carinho com que tinha sido cuidada por ela quando esteve doente. Se fosse da natureza dela, iria procurar aceitar, compreender e acolher. Percebia como Ellena ficava feliz quando Mariana chegava, como a companhia da aluna lhe fazia bem. Achava tão bonito o carinho com que se tratavam. Não, isso não pode ser uma doença. Doença nenhuma faz tão bem para uma pessoa como essa relação faz para as duas. Será que a natureza delas é diferente?&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Tentava pegar no sono, esquecer o que tinha ouvido. Mas os sussurros e gemidos continuavam ecoando na sua cabeça. Pensava no que poderia acontecer se seu Arthur descobrisse. Ou D. Zizi, ou Donanna, Deus me livre. Já pelo meio da madrugada decidiu que não iria mais questionar a relação das duas, ao contrário, iria protegê-las, isso sim, ajudá-las no que estivesse ao seu alcance. O amor e a gratidão que sentia por Ellena, o carinho que já sentia por Mariana, tão delicada com ela, estavam acima de qualquer coisa. Até de um relacionamento como esse. Certa ou errada, era uma relação tão bonita, tão pura mesmo, havia tanto carinho entre as duas, que deveria haver espaço no coração do Criador para essa forma de amor.&nbsp;</p>



<p><em>Imagino como as duas devem se sentir sozinhas, pensou. Não podem contar com a compreensão nem o apoio de ninguém. De ninguém, não. Tenho vontade de chegar pra Ellena e dizer que elas podem contar comigo, sim. Só não tenho coragem de tocar num assunto tão íntimo. Mas eu e ela nos entendemos tão bem que nem preciso falar nada. Ela vai perceber. Tenho como mostrar isso pra ela sem precisar falar.&nbsp;</em>&nbsp;</p>



<p>Aliviada com a sua decisão, em paz com o seu coração, já quase amanhecendo o dia, conseguiu pegar no sono.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Na quinta feira seguinte, antes da hora da aula, Bazinha preparou um <em>refresco</em> de tamarindo, colocou numa pequena jarra de vidro com algumas pedras de gelo, levou numa bandeja com dois copos e, discretamente, deixou em cima da escrivaninha do mirante, onde as duas costumavam se encontrar. Em seguida saiu para as compras, como faz toda semana.&nbsp;</p>



<p>Ellena e Mariana tomam um susto quando entram no cômodo. Mariana não entendeu nada, mas Ellena, sim. Realmente ela e Bazinha se conheciam tão bem que muitas vezes nem precisavam de palavras pra se comunicar. Ela sabia muito bem o que Bazinha queria lhe dizer com aquele gesto.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>– Mariana, tu sabes o que esse <em>refresco</em> aqui significa?&nbsp;</p>



<p>– Não consegui entender nada, Ellena. Não foste tu que colocaste aí?&nbsp;</p>



<p>– Não, foi Bazinha.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>– Meu Deus!&nbsp;</p>



<p>– Foi a maneira que ela encontrou pra nos dizer que já sabe da nossa relação, que nos aceita e compreende nosso sentimento. Tinha muita vontade de poder me abrir com ela, mas tinha medo de decepcioná-la. Agora vejo que, mais uma vez, posso contar com ela. Essa é minha amiga de verdade! Uma mulher simples é capaz de aceitar nossa relação. Por que as outras pessoas, supostamente instruídas, não? Por que se incomodam tanto com a vida dos outros? Por que não vivem as suas próprias vidas e nos deixam viver as nossas?&nbsp;</p>



<p>Quando Bazinha voltou da mercearia, no final da tarde, Mariana já tinha ido pra casa. Ellena esperou por ela na varanda. Bazinha deixou as compras sobre a mesa da cozinha, sem tirar os olhos do chão. Não sabia como a patroa iria reagir. Ellena aproximou-se dela, segurou-a carinhosamente pelo braço e deu-lhe um longo abraço. As duas se emocionaram, abraçadas. Mais uma vez não precisaram de palavras. Talvez um dia até viessem a conversar sobre o assunto, mas, naquele momento, não era necessário.&nbsp;</p>
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